14 de janeiro de 2011

A Lenda do Peixe Bororo

Conta a história que um pequenino vilarejo de pescadores sofreu durante alguns séculos a maior escassez de peixes de todos os tempos. Durante aquele período não se via nadar nenhum ser no mar, pois todos os animais haviam sumido misteriosamente. De todas as espécies apenas uma restou.

Os pescadores tentavam compreender como tantos animais haviam sumido da noite para o dia, e mais, preocupavam-se com o que comeriam a partir daquele momento, já que os peixes, que eram a principal fonte de alimentação na vila, haviam desaparecido.

Durante a noite que os peixes se foram, somente um cardume permaneceu na ilha, o cardume dos peixes Bororo, que eram considerados sagrados pelos pescadores. Eles acreditavam, que esses peixes eram responsáveis pelo equilíbrio da vida no mar e na Terra, mantendo assim, a harmonia entre o animal-alimento e o animal-predador. Entre o homem e os seres do mar.

Para os pescadores o Bororo não poderia ser comido nunca, pois cada peixe concentrava em seu cerne, metade de vida animal e outra metade de espírito. Caso alguém se alimentasse deste animal sem estar preparado, entraria em um estado de coma, onde a alma escaparia fluidamente, como a fumaça que esmaece pelo vão de uma garrafa.

Os dias passavam e o alimento diminuía a cada dia. Temendo não ter mais o que comer, as pessoas se apavoravam e aos poucos abandonavam a ilha, pois já não acreditavam mais no retorno dos peixes. Deixavam suas casas, abdicavam a si da própria vida. Foi então que o pescador mais antigo da vila tomou uma importante decisão, pescar o peixe sagrado.

O sábio pescador mesmo sabendo dos riscos que correria em comer o peixe sagrado, lançou-se ao mar em busca desse animal. Ao perceberem, os outros moradores tentaram contê-lo, pois temiam as conseqüências irreversíveis dessa escolha, mas calaram-se ao perceberem que o velho homem já havia decidido o seu futuro.

Ao sair pediu proteção aos céus e lançou-se ao mar. Percorreu com o seu velho barco de madeira por dias afora o oceano infinito, até por fim, conseguir avistar o cardume sagrado. Permaneceu imóvel durante algum tempo observando a beleza e a incomum sincronia daqueles seres. Munido de coragem, empunhou o seu arpão e levantou os braços, como quem recebe bênçãos e, já na posição de lançar aquela arma mortal, olhou com firmeza aqueles peixes que nadavam lentamente, como que permitindo-se ser presa, e pediu sabedoria para compreender o que lhe seria evidenciado.

Lançou-se à vida.

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Como uma pancada nas têmporas, a consciência foi tornando-se torpe e a negridão do infinito tomou-lhe por completo.

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Despertou. Ele, o peixe e o arpão, todos deitados sob a madeira úmida daquela pequena embarcação. Sentia-se iniciado, pronto para a comunhão entre matéria e espírito.

Certo de sua missão, o pescador retornou à ilha com o seu barco, o peixe e o arpão. Preparou calmamente um fogareiro brando e estável, limpou o peixe e agradeceu a criatura por ter renunciado à vida para alimentá-lo. Pousou o animal cuidadosamente sobre a brasa.

Enquanto o peixe era preparado, sentou-se e pôs-se a observar o mar. Seu pensamento correu fluido e em um tempo fora do tempo. Deixou abandonar-se até sentir-se pronto.

Ingeriu aquele pedaço de vida.
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Temeu por instantes não suportar o porvir, mas conteve o pensamento e retomou o processo de contemplação.

Lentamente os seus pés e mãos mergulharam imensidão a dentro, e ele, o pescador, já não os sentia mais, era como a sensação de quem afunda os dedos pela saca de arroz. Seu corpo todo inebriado por aquela sensação, emanou um calor que exalava do centro da vida. Então, amou com intensidade. Vivenciou naquele momento o retorno ao útero da vida e sentenciou:

“O amor é o único alimento do corpo e da alma”.



1 de novembro de 2010

27 de outubro de 2010

Garota Planta



Por medo de sonhar em demasia, ela, a garota, optou por apenas viver nos ventos sublimes e azuis dos encantamentos oníricos. Fez o seu medo, o seu porvir ainda mais belo.

Renunciou à falsa vida e planta tornou-se. Passou a ter aorta de galhinhos esverdeados que conduziam uma seiva tão alva quanto as penas daquelas gaivotas do Sul. Dos galhinhos saem também incontáveis folhinhas que na primavera floram e eclodem frutinhas, as quais, minúsculos passarinhos devoram com todo o seu amor de fantasia.

E ela, a garota, também passou a se alimentar de si mesma, e assim, notou que a felicidade serena passou a ser a sua única realidade. E então amou. Amou com verdade a sua existência e também a de todos os seres que a faziam intensamente viva.

23 de setembro de 2010

14 de setembro de 2010

little_secrets

Caso tenha alguma pergunta a fazer, apóie sua cabeça serenamente sob o travesseiro e aguarde a viagem noturna chegar... o dia seguinte transcorrerá fluido e aparentemente corriqueiro, mas lá pelas sete ou oito, talvez dez, você notará que a resposta veio quase que imperceptível, e que agora, já faz parte de uma certeza!

Confie, se perguntar com sinceridade e amor, elas lhe contarão os segredos ao pé do ouvido.





14 de agosto de 2010

'outros tempos'


idade contemporânea
meu medo é índio não saber mais tratar do veneno da aranha
viver no genérico
no bolsa família
usar short da adidas
que vida!
banidos do paraíso
perde-se o choro, o rito
a magia, o mito
o que sobra? 
quando sua essência é devastada pelas mãos de carapuceiros?
agora, globalização, caba não mundão!
indío quer dinheiro.

 
Texto: Natame Diniz
Foto: Mariana Conti
*início do projeto 'outros tempos'




13 de agosto de 2010

Estrofes passarinheiras para um ninho alado

o meu ninho se foi
e olha que o canário sou eu
ele voou para o céu do infinito
e eu por aqui fiquei

mas veja só que ironia
eu que sou desses seres de voar
decidi por aqui ficar e outros caminhos desbravar

enquanto essa inversão acontece
o meu peito não esquece

nossa! eu tive um ninho alado.
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estudo número quatro sobre a passarinhagem

11 de agosto de 2010

Estrofes passarinheiras para um ninho que se foi

e eu que sou canário
agora não tenho onde morar
vou vagando por aí afora
até o mundo todo eu voar

o meu ninho se foi com as chuvas
e para esse inverno fiquei à deriva
mas como ainda sei planar
saio por aí afora a en-cantar

quando o frio findar
talvez eu volte pro meu aconchego,
isso se eu o encontrar,
aí sim serei feliz demais
para o amor novamente eu desbravar
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estudo número três sobre a passarinhagem

10 de agosto de 2010

Protopoema de um ninho feito com galhinhos dos jardins do cerrado

o meu ninho é quente e cheira
amor

o conforto dele é a paz
mundo

ele é quente nas invernadas
calor

porém seja leve nas floradas
pluma

lá encontra-se toda a calmaria do mundo
harmonia

é o meu não lugar.



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estudo número dois sobre a passarinhagem

9 de agosto de 2010

Introduzindo seres estranhos à passarinhagem

- você foi só?

- não, não. claro que não! Manoel me acompanhou em todos os momentos.

- Que Manoel?

- de Barros. grande companheiro de viagem! conversamos sobre muitas coisas importantes, sobre as borboletas, os rios, o azul, o branco, as formigas, os Pássaros. só não falamos das pessoas, mas isso não tem importância mesmo.

- e quem é esse tal de "de Barros"?

- ah, é um homem que aprendeu tanto, mas tanto, com os pássaros, que acabou sendo adotado pelo João e herdou seu sobrenome:  "de Barro".


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estudo número um sobre a passarinhagem

 
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