25 de setembro de 2009

sem forças no momento...


"a ladeira era como um lago que ia se formando, e sobre o primeiro fio de água, moedas de um real retorcidas, jogadas ao acaso por quem levava fé... mais adiante, a fundura do líquido, a alegria do homem, o acalanto do coração".


fragmentos de um sonho tranquilizador...

16 de agosto de 2009

sertão. sol. letra. telha. amor e barro.

dia 27 de maio de 1984, ela avistara pela primeira vez o seu futuro esposo. tinha apenas 7 anos, mas já sabia que aquele seria seu único e grande amor para toda a vida. passou todos os dias que viriam a frente até o dia de seu casamento a bordar, escrever e esperar o seu véio.


escrever poemas e histórias sobre o seu futuro amor era a sua atividade diária mais esperada, e assim foi até o dia de seu casamento. passava horas a imaginar como seria sua vida de casada, os seus filhos, netos e bisnetos, depois transcrevia todas as suas emoções e certezas para algum papel que encontrasse. guardava todas as suas anotações feitas com esmero e paciência em uma caixinha de madeira no fundo de seu armário e ficava a pensar nelas como se fossem uma recordação de algo que ainda nem acontecera.


casou-se aos 16 anos, ele tinha pouco mais. moraram durante um curto período numa casinha simples emprestada pelo pai do noivo, enquanto construíam a mais bonita casa que a cidade viria a ter.durante os dias, ele subia as paredes da casinha com os tijolos que sua véia fazia. aplicava todo o seu cuidado colocando tijolo a tijolo, e pensava estar pondo pequenas partes de si mesmo naquele abrigo do amor. a cada metro levantado sentia mais orgulho do que fizera, e então, continuava o seu trabalho mais empenhado e feliz.


durante a noite, após a higiene, ela acendia a lamparina na varanda da casa e lia novamente um poema por noite para relembrar dos sentimentos que jamais esquecera. logo ao amanhecer, quando iniciava os seu trabalho, carregava junto a si alguns dos antigos escritos presos nas ancas e caminhava durante horas para ir a beira do riacho colher barro para fazer as telhas e os tijolos da sua futura casa. voltava com as latas de barro, colocava-o na forma para fazer a matéria prima de seu abrigo. fazia nada mais que amor.


quando o barro ainda molhado, transcrevia suas cartas para as telhas e tijolos, como quem inscreve toda sua história e das suas futuras gerações para todo o mundo ver e aprender com o verdadeiro sentimento de pureza. fazia desenhos e escrevia, pintava e completava as telhas com todo empenho e fidelidade. sabia estar escrevendo o passado o presente e o futuro, todos os tempos de forma imutável.


a casa ficara pronta meses depois. os sentimentos de calor humano transpassados para o telhado e paredes da morada eram intensificados pela energia solar. no corpo ela já se faz latente, mas quando permite-se que ela entre em contato com o espiritual, torna-se evidente e pulsante. Mais bela que qualquer compreensão humana.

29 de julho de 2009

a comilança desenfreada dos pútridos abutres

Carcará, pega, mata e come.

assim, simples, porque carcará é bicho do mal e valentão e não quer saber de tua desgraça não

carcará vai engolir tudo o que houver nessse mundo, as pestes, as vestes e os ventres

mas carcará é bicho malvado, que judeia de mim e dos pintados

peço que chegue logo esse fim, pois eu já estou estrupiado

hoje o sangue pulsa sem parar e anseia o fim que não quer cessar... Carcará


pega
mata
come

13 de julho de 2009

para um certo (NADA)

uma delicada visão
aéreo como nuvem
desejei penetrar nas entranhas, e asssim como o ar
misturar-se.
mais do que amor
contagiei-me pela sua admirável calma
dissimulada em seu agressivo (NADA)

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só para relembrar o que não se pode esquecer, o que este ser mundano ainda não pode compreender.

4 de julho de 2009

Inspiração é saber que ainda há pessoas que trabalham por pessoas.

Com a modernização da vida, o ser humano perdeu sua característica essencial de sobrevivência, a fraternidade.

O homem, mais do que nunca, encontra-se trancado em seu mundo particular, deixa uma vida inteira passar sem nenhum propósito maior. Enclausura-se na clausura. Protege-se como pode dos perigos que as imensas cidades podem oferecer.

Mas toda essa clausura não seria uma forma de negar mais do que o outro, mas negar a si mesmo? – Repúdio enrustido sob a própria pele, sobre o próprio ser.

Creio na cultura e na arte como uma das únicas formas de levar o conhecimento às massas adormecidas pelo sono do descaso. A população brasileira dorme o sono da ignorância enquanto as nossas autoridades gozam sobre a desgraça do povo.

Não é interesse das nossas autoridades conduzir à transformação as massas tão homogêneas em seres realmente pensantes. Tudo é imposição. Cria-se uma felicidade constante, para que não possa emergir a realidade.

A arte. Ah, a arte... Os sábios pensadores do passado já proclamavam a plenitude. A arte é a mais pura, profunda e evoluída forma de educação do espírito.

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fragmentos de 2007, pensamentos ainda constantes.

18 de junho de 2009

escriturinhas de metrô

Naquele momento ouvira as peripécias do poeta sonoro stockhausen. O som da vida urbana coabitava na mesma caixa vital, mas sem anular a angustia poética.

O tilintar dos metais em contraponto com os atabaques africanos emergiam de uma atmosfera obscura e, colocavam-na, efemeramente, no estado sereno.

Ao fundo o piano agudo machuca os tímpanos do coração. São pontadas profundas que a cada estridência fazem-na relembrar das sensações torpes.

Mas ao final o poema completa o ciclo e abranda o questionar. A vida nunca cessa enquanto o ser não pára de buscar.



*ao som de "so far"

25 de maio de 2009

para isso não há título

Não me interessa o que você faz para ganhar a vida.

Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia.

Não me interessa saber a sua idade.

Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo.

Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a sua lua.

Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor!

Quero saber se pode suportar a dor, minha ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria, minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até a ponta dos dedos das mãos ou dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos.

Não me interessa se a história que me conta é a verdade.

Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair a sua alma. Quero saber se você pode ver beleza mesmo que ela não seja tão bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus. Quero saber se você pode viver com o fracasso, seu e meu, e ainda, à margem de um lago, gritar para a lua prateada: ‘Posso!’

Não me interessa onde você mora ou quanto dinheiro tem.

Quero saber se pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem de ser feito pelos filhos.

Não me interessa saber quem você é e como veio parar até aqui.

Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará.

Não me interessa saber onde, o quê, ou com quem você estudou.

Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo o mais desmorona.

Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios.

Sonhador da Montanha Oriah - ancião índio americano

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*pela primeira vez publiquei algo que não seja meu, mas que apareceu em um dia que justamente essas questões insistiam em dilacerar o meu pensamento.

22 de maio de 2009

sonhos abortados


Os sonhos tiveram que ser abortados. Todos
Isso por conta da massacrante maioria que teima em tardar a evolução humana.

Nos sonhos já não há mais céus azuis, nem borboletas ou sublimação. Parece haver espaço apenas para o ter e o possuir.
Devaneio querer possuir a alva e etérea real sensação do prazer, pois a perenidade pertence, e não compra.


Abortamos os amores singelos e as sensações dos pequenos prazeres.
Devemos dar a nossa vida para a evolução. Por ela trabalho, por ela suporto o hoje.
Densa e espessa realidade a qual carregamos nas costas, levando uns aos outros, mas não conseguindo enxergar o benefício desse peso todo. Não conseguindo compreender quais serão os passos futuros.

Apesar de os sonhos terem sido abortados para esta geração, o mundo não se acabará tão breve, não ainda.

Aceitaremos a nossa condição de hoje para que em um futuro qualquer possamos desfrutar todo o nosso ardor em um plano mais elevado.

... Eles foram decapitados pelos cegos que teimam em prolongar a sua cegueira
Que trabalham em prol do caos de si mesmo, mas que um dia poderão ver a realidade sem esse tal véu tolhedor, e então, despertarão para o novo começar.

Os sonhos foram decapitados, mas nós ainda não. Não.

26 de abril de 2009

a semente de mim

Quando percebo-me o cérebro diluiu-se em explosão. Lá não sou mais aquela, nem a outra.

É quando me esfacelo e dilacero, quando encontro-me aos pedaços, que eu avisto o meu verdadeiro eu.

Desconstruo-me em uma miraculosa gama de cacos indecifráveis, e sei realmente o que sou.

Afugento todos os excessos, faço necrosar o que não sou. A dor da auto-mutilação é a recompensa por realmente entregar-se a si.

O que sobra?

A semente de mim.

O que dissipa?

A frouxa e desprezível derme tolhedora.


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ainda tento escrever coisas mais brandas e conduzir os meus pensamentos de forma mais bela. mas a vida é dura e nos impulsiona à profunda reflexão, que pouco-a-pouco, mostra os seus sintomas bruscos e irreversíveis

11 de abril de 2009

o que torna o amor tão raro para esta condição?

a semente é semeada no mais genuíno calor do amor
mas o fruto é ganancioso e não sabe ponderar

pobre homem que nasceu com o peito aberto
que cresceu a amar e fazer da vida um infinito chorar

ele não encontra a sua amada, mas ela o espera pacientemente sentada
ambos com corações verdadeiros
flagelados pelos que só querem as sensações passageiras

e assim ele vive a se fechar...

não ama pois não enxerga,
não fala pois pinta,
não vive pois ama.


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dramas da contemporaneidade - os ombros arqueiam-se carne a dentro*, impelindo todo e qualquer EFEITO de impacto. Simulacro, placebo massacrante.
*carne a dentro; quando muito elevado, no máximo alma. rs. mas isso só quando se sabe della....
 
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